Mensagens no Twitter têm credibilidade para pesquisas

twitterQuando o terremoto de magnitude 5,8 atingiu o Estado da Virgínia, nos Estados Unidos, em agosto, as primeiras mensagens que as pessoas que estavam no epicentro publicaram no Twitter foram praticamente instantâneas, às 13h51 no horário local, e chegaram a Nova York cerca de 40 segundos antes dos primeiros tremores sequer serem sentidos na cidade, segundo estimativa da SocialFlow, uma firma que ajuda empresas a usar melhor as redes sociais.

A avalanche de mensagens chegou a 5.500 posts por segundo.

Os primeiros breves tweets foram mais rápidos até que os sismógrafos do Centro de Pesquisas Geológicas dos Estados Unidos, que geralmente levam de 2 a 20 minutos para emitir um alerta. A agência está agora fazendo testes com o Twitter como um meio mais barato e rápido de monitorar terremotos.

Nunca antes cientistas tiveram tantos dados em tempo real e acessíveis sobre o que as pessoas dizem. O Twitter, serviço que permite aos usuários enviarem mensagens de textos de até 140 caracteres para o público em geral, publica mais de 200 milhões de mensagens por dia. Em comparação com as mensagens de celulares e outros sites de redes sociais, os textos do Twitter são constantes como um batimento cardíaco e, em conjunto, compilam a matéria-prima da história social.

Assim como o tráfego de mensagens no Twitter tem crescido de forma exponencial, tem crescido também o apetite dos cientistas pela compreensão dessas informações. Nos últimos 18 meses, dezenas de novos estudos acadêmicos de sociólogos e analistas de redes de computação têm monitorado a avalanche de dados do Twitter por meio de conecções especiais com servidores da empresa.

Essa pesquisa tem aproveitado para monitorar atividades políticas e a moral dos funcionários, rastrear indicativos de gripe e intoxicação alimentar, mapear flutuações de humor mundo afora, prever a bilheteria de lançamentos do cinema e antecipar oscilações no mercado acionário.

Quando o terremoto de magnitude 8,8 atingiu o Chile no ano passado, pesquisadores verificaram que a verdade no Twitter frequentemente vence a falsa informação. “Quando um rumor é verdadeiro, ele se espalha mais rápido”, diz a analista de computação Barbara Poblete, da Universidade do Chile, em Santiago.

Poblete e seus colegas analisaram como os sobreviventes do terremoto usaram o serviço de mensagens em substituição aos meios de comunicação convencionais que ficaram fora de operação. Eles descobriram que durante momentos de crise, os usuários do Twitter automaticamente diferenciam as informaçãoes verídicas das falsas, exercendo uma sabedoria coletiva. Nos posts, ela encontrou diferenças mensuráveis na liguagem, citações e padrões em quantidade suficiente para elaborar uma forma de identificar imediaramente o que tem credibilidade ou não no Twitter, com um nível de acerto ao redor de 70%.

“O próprio sistema é capaz de criar um filtro para informações válidas”, disse Poblete.

Essas informações também têm se provado úteis para o mundo dos negócios. Centenas de empresas de redes sociais, coleta de dados e de serviços financeiros pagam hoje uma média de US$ 360.000 por ano pelos dados do Twitter, de acordo com duas empresas licenciadas para comercializá-los mundialmente: a Gnip Inc, de Boulder, no Estado americano do Colorado, e a DataSift, de Reading, no Reino Unido. “O Twitter protege quem tem a informação e para onde ela está indo”, diz Nick Halstead, diretor de operações da DataSift. “É a ferramenta de pesquisa de consumo por excelência.”

Apesar da prática ainda ser experimental, as informações do Twitter já se tornaram uma variável-chave na fórmula de análise do comportamento de investimentos financeiros. “Fundos de hedge estão liderando esse processo”, diz Chris Moody, diretor de operações da Gnip. O executivo não revelou, porém, nomes de clientes. “Eles não querem que ninguém saiba qual é sua fórmula secreta de informações”, diz.

A companhia fornece dados do Twitter para uma firma de investimentos em Londres chamada Derwent Capital Markets, que lançou em maio um fundo de US$ 40 milhões que usa uma fórmula baseada em informações obtidas via Twitter para direcionar suas decisões de investimentos.

Pesquisadores da Universidade de Indiana e da Universidade de Manchester que desenvolveram a técnica para fundos dizem que eles podem prever de forma confiável, em até quatro dias, as mudanças no mercado acionário com base nas altas e baixas do humor nacional expressado por certas palavras presentes nos textos de cerca de 130.000 usuários regulares do Twitter.

“Nós podemos fazer essas previsões em tempo real e acho que elas podem ser usadas por um hedge fund como forma de ter uma vantagem competitiva no mercado”, diz Johan Bollen, cientista da computação da Universidade de Indiana e consultor do fundo Derwent. Bollen ajudou a desenvolver a ténica pioneira. “Nós estamos ainda mais confiantes de que a técnica de fato funciona.”

Após o primeiro mês de uso do sistema em negociações, em julho, a firma de investimentos anunciou que o desempenho do fundo superou o índice Standard & Poor’s 500 no período, subindo 1,85% enquanto o índice caiu 2,2%.

Pesquisadores liderados por Bernardo Huberman, do laboratório de Computação Social da Hewlett-Packard Co., usaram o Twitter para prever os sucessos e fracassos das bilheterias de cinema. Eles conseguiram prever o resultado financeiro de 24 filmes, entre eles “Um Sonho Possível” e “Lua Nova” , analisando a intensidade do boca-a-boca no Twitter. “Nós queremos agora fazer a mesma coisa com produtos”, diz Huberman.

Outros pesquisadores continuam descrentes com relação ao poder de previsibilidade do Twitter.

Pesquisadores do Wellesley College, em Massachusetts, examinaram o tráfego de mensagens do Twitter referente a seis candidaturas durante o período que antecedeu as eleições para o Congresso no ano passado. O objetivo era ver se o tom emocional das mensagens com relação a cada candidatura poderia ter sido usado para prever o resultado do pleito. No total, eles analisaram cerca de 250.000 mensagens de mais de 60 mil pessoas.

“O Twitter não foi melhor do que o acaso”, disse a cientista de computação Eni Mustafaraj, que liderou a pesquisa.

Os militares americanos já reconheceram o Twitter como um novo campo de batalha para a guerra da informação. Em julho, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa, do Pentágono, conhecida como Darpa, começou a analisar a viabilidade de um projeto orçado em US$ 42 milhões para detectar em tempo real “campanhas de persuasão” e “operações de influência” que tenham como objetivo disseminar ideias via Twitter ou outras redes sociais. A agência quer também desenvolver uma nova tecnologia para automaticamente contra-atacar mensagens adversárias.

“Mudanças na natureza dos conflitos fruto do uso de mídias sociais tendem a ser tão profundas como as que resultaram de revoluções anteriores das comunicações”, disse o porta-voz da Darpa, Eric Mazzacone, numa resposta por escrito a perguntas. “Adversários podem explorar as mídias sociais e outras tecnologias relacionadas com o objetivo de desinformar.”

Ao contrário de outros sistemas de mensagens instâneas, como email, Facebook ou Google, as mensagens pessoais enviadas por meio das contas do Twitter são públicas a princípio. Qualquer um pode participar de conversas.

“Com o Twitter, você tem um microfone, na prática, para se destacar das milhares de conversas em andamento durante o dia”, diz o cientista de computação Alan Mislove, da Northeastern University, em Boston, que usa o serviço de mensagens para rastrear rumores, sentimentos nacionais e informações sobre marcas comerciais.

Pesquisadores admitem que os estudos têm algumas limitações. Os usuários do Twitter são geralmente adultos jovens, de centros urbanos, com poder aquisitivo mais alto e que tendem a ter menos filhos. Eles não representam a sociedade como um todo. Ainda assim, segundo os pesquisadores, há uma diversidade suficiente entre eles que permite fazer valiosas generalizações.

Ninguém sabe exatamente quantas das cerca de 200 milhões de contas registradas no Twitter estão ativas num determinado momento e quantas são contas fictícias. O Twitter recentemente descobriu que apenas metade dos usuários publica mensagens. Alguns dos usuários sequer são humanos. Programas de software automáticos chamados “bots”, criados para divulgar publicidade, administram essas contas.

Um Twitterbot de um experimento — cuja conta já foi desativada — fingiu ser um entusiasta dos esportes. “Adoro partir numa aventura quando acho tempo para não deixar a poeira sentar no passaporte”, dizia uma breve biografia em seu perfil. A fotografia mostrava um alpinista entusiasmado. “Depois que o lançamos ele continuou sozinho”, disse o engenheiro de software Greg Marra, que ajudou a criar o robô como um projeto de faculdade. Segundo seu projeto, “ele tomaria um tweet de outro usuário e o imitaria. Ele podia produzir sem qualquer supervisão um fluxo constante de tweets plagiados”.

Durante seus nove meses como usuário ativo do Twitter, o robô enviou centenas de mensagens sobre esportes, sexo, diabetes e até a importância do marketing on-line. Ele conseguiu atrair 1.538 seguidores que aparentemente nunca perceberam que estavam se relacionando com um robô.

Sociólogos especializados na internet temem que essas novas invenções criem uma maneira poderosa de manipular as pessoas por meio do Twitter numa escala ainda maior. “Fazer isso no Twitter com mil contas ou um milhão de contas é o próximo passo”, disse o cientista de computação Jacob Ratkiewicz, da Universidade de Indiana.

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    26/06/2017