Brasil luta para Crescer Sem Inflação

O Banco Central do Brasil enfrenta o clássico dilema explicado nos livros sobre câmbio e finanças — como controlar a inflação sem prejudicar o crescimento.

A maioria dos economistas não acredita que as autoridades monetárias possam fazê-lo, mas admite que a maior parte do problema tem a ver com o enfraquecimento da economia mundial.

“O problema é que, ao contrário da crise em 2008, desta vez o Brasil enfrenta uma desaceleração numa época de inflação maior”, diz Gesner Oliveira, economista da Fundação Getulio Vargas.

Os dados publicados terça-feira mostram que a inflação anual no Brasil está em 7,2%. O número não é apenas maior do que a meta do governo em 2011 de 4,5%, a taxa também está bem acima do teto do programa de meta de inflação do país.

“A inflação transformou a política monetária numa faca cega”, disse Oliveira. “O banco central pode reduzir as taxas de juros, mas estaria alimentando a inflação ao mesmo tempo.”

O Banco Central cortou a taxa básica Selic na semana passada em meio ponto percentual, especificamente citando a “deterioração” da economia global. Mas a taxa básica ainda está num patamar elevado, de 12%.

“Os dados de emprego e de renda sugerem um cenário de inflação contínua”, disse o analista Celso Roma, da Tinga Consulting Group.

O desemprego no país caiu para 6,0% em julho, o menor nível já registrado, ao mesmo tempo que o alarmante aumento mensal de 2,2% dos salários médios no mês reforçou as preocupações com a demanda puxada pela inflação.

O problema da demanda deve provavelmente piorar. Os trabalhadores do setor siderúrgico conseguiram um reajuste de 10% para o salário anual em agosto. Os bancários estão exigindo 12,8% e os sindicatos de petróleo e gás, 17,3%. Os sindicatos dos setores siderúrgico, bancário e de energia representam mais de um milhão de trabalhadores.

Em janeiro, o salário mínimo deve receber um reajuste estimado de 13,6%, para cerca de R$ 620 por mês. Cerca de 25% dos trabalhadores do Brasil recebem salário mínimo, com o aumento de janeiro colocando mais R$ 9 bilhões nas mãos dos consumidores de baixa renda, de acordo com um estudo da LCA Consultoria. Milhões de pessoas também vão receber pagamentos maiores em janeiro para as aposentadorias e outros benefícios do governo, a maioria atrelada diretamente ao salário mínimo. O Ministério do Planejamento estima que o total de pagamento de benefícios vai subir para R$ 21 bilhões em 2012.

“A inflação irá encerrar 2011 acima do teto da meta” diz Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating em São Paulo. Se isso acontecer, será a primeira vez desde 2003 que o governo não cumprirá a meta de inflação.

O diretores do banco central não quiseram comentar a decisão de corte de juros, dizendo que a publicação da ata da última reunião vai ajudar a explicar as razões para a redução.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, em comentários aos repórteres, elogiou o corte da taxa. “O crescimento global será menor do que o previsto e isso terá um impacto no Brasil”, disse. “Estamos adotando medidas para manter a economia brasileira caminhando, apesar do desaquecimento global. Acreditamos que a economia possa crescer 5% no próximo ano.”

Economistas do setor privado estão bem menos otimistas.

A economia brasileira já está perdendo força e, de acordo com os números do governo divulgados semana passada, a expansão no segundo trimestre foi de apenas 3,1% na comparação com o ano anterior, bem abaixo da taxa de crescimento anual em 2010, de 7,5%.

Em um relatório, os economistas do Credit Suisse rebaixaram as previsões para o crescimento do PIB brasileiro em 2012, de 4,0% para 3,3%.

E pode ficar pior, disse Oliveira. “Se os EUA e a Europa entrarem em recessão, a expansão da economia brasileira pode cair para uma faixa de 1% a 2%”, disse.

WSJ

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    24/06/2017